Pesquisa revela: duas favelas de Manaus estão entre as cinco maiores do Brasil

Os percentuais também indicam a forte participação dos habitantes periféricos na economia

Duas favelas de Manaus estão entre as cinco maiores do Brasil, revela levantamento nacional

MANAUS (AM) Um estudo divulgado pela Central Única das Favelas (Cufa), em parceria com o Data Favela e com base em dados do IBGE, revelou que duas comunidades de Manaus figuram entre as cinco maiores favelas do Brasil. A Cidade de Deus, localizada no bairro Alfredo Nascimento, zona Norte, e a Comunidade São Lucas, entre os bairros São José Operário e Tancredo Neves, na zona Leste, estão atrás apenas da Rocinha (RJ), Sol Nascente (DF) e Paraisópolis (SP).

Com milhares de moradores, essas comunidades enfrentam desafios crônicos como a falta de saneamento básico, ruas não pavimentadas e ausência de políticas públicas eficazes. Apesar disso, o levantamento mostra que a vida nas favelas é marcada por um forte senso de pertencimento, dinamismo econômico e intensa vida comunitária, contrariando estigmas associados à pobreza.

Entre os dados mais reveladores, destaca-se que 77% dos moradores de favelas da Região Norte pretendem comprar roupas nos próximos seis meses, número superior à média nacional (70%). O consumo de perfumes e cosméticos também é mais alto na região: 67% contra 60% da média brasileira. Os números apontam para o protagonismo da periferia no mercado de consumo, bem como o cuidado com autoestima e inclusão social.

“As pessoas não vivem na favela porque querem, mas porque não tiveram escolha”, resume o professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e doutor em Linguística, Sérgio Freire. Para ele, a presença massiva de moradores na Cidade de Deus e na comunidade São Lucas é resultado de fatores estruturais e históricos.

“A precariedade do mercado formal de habitação em Manaus, somada à especulação imobiliária e à ausência de políticas habitacionais consistentes, empurra a população para áreas irregulares nas periferias. Ainda assim, essas comunidades se transformam em espaços de resistência, coletividade e identidade”, afirmou Freire ao Portal Rios de Notícias.

Orgulho, consumo e resistência

O estudo também revela que 94% dos moradores de favelas no Brasil sentem orgulho de onde vivem. Para Freire, esse sentimento mostra que comunidades como Cidade de Deus e São Lucas não devem ser vistas apenas pela ótica da carência material.

“Esse orgulho não é contraditório. Ele demonstra que há ali um tecido social forte, laços afetivos, redes de solidariedade e memória coletiva. Esses territórios são, muitas vezes, mais acolhedores e seguros emocionalmente do que outras áreas da cidade onde impera o anonimato”, explica.

O levantamento destaca ainda o papel da fé, do autocuidado e da inclusão digital na vida desses moradores. O desejo de cuidar da aparência, o consumo de produtos de marca e o crescimento das compras online mostram que a favela está conectada, ativa e em busca de dignidade, mesmo diante das limitações.

O estudo reforça o apelo para que o poder público enxergue essas comunidades não apenas como alvo de repressão ou políticas assistencialistas, mas como territórios que exigem investimentos estruturais urgentes em educação, saúde, infraestrutura, mobilidade e cultura.