Manaus (AM) – Em mais uma promessa que mistura cálculo eleitoral com retórica ambiental, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta terça-feira (09/09) que o “acordo definitivo” para a reconstrução da BR-319 será fechado ainda neste mês. O anúncio foi feito durante visita a Manaus, mas soa mais como jogo de cena para agradar diferentes públicos do que uma decisão real de governo.
O projeto, considerado um dos maiores impasses ambientais da Amazônia, é defendido por parlamentares e empresários como a principal ligação entre Manaus e Porto Velho. No entanto, Lula tenta equilibrar o discurso: posa como guardião da floresta enquanto sinaliza aos aliados políticos que a rodovia sairá do papel.
“Vamos fazer a BR-319, mas é importante cuidar da Amazônia”, disse o presidente, em tom professoral. O problema é que a fala repete o mesmo mantra de responsabilidade sem apresentar medidas concretas para frear o avanço do desmatamento, grilagem e expansão agropecuária — práticas historicamente aceleradas pela abertura de estradas na região.
Lula também defendeu Marina Silva, ministra do Meio Ambiente, constantemente atacada por políticos do Amazonas. “Se a rodovia não foi feita antes, não é culpa dela”, disse o presidente, transferindo responsabilidades e tentando blindar a aliada. O discurso, no entanto, expõe a fragilidade do governo: enquanto tenta agradar ambientalistas no exterior, Lula precisa dar respostas aos caciques locais que cobram a execução imediata da obra.
Segurança e vitrine eleitoral
A visita de Lula a Manaus não se restringiu ao anúncio da BR-319. O presidente inaugurou o Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia (CCPI Amazônia), em um ato carregado de simbolismo político, no momento em que o governo tenta mostrar firmeza diante do narcotráfico e das tensões fronteiriças.
O presidente prometeu “uma polícia preparada”, comparando a estratégia brasileira com países que erguem muros em suas fronteiras. O discurso, embora grandiloquente, ignora os cortes orçamentários que enfraquecem a presença efetiva do Estado na região amazônica.
Petróleo no Amapá: a contradição energética
Outra promessa de Lula foi acelerar a exploração de petróleo na Foz do Amazonas, no Amapá. O presidente garantiu que as licenças ambientais estão a caminho e a Petrobras já iniciou testes. Aqui, mais uma contradição: enquanto fala em “transição energética” e defende o uso do hidrogênio verde, Lula aposta na ampliação da exploração de combustíveis fósseis para financiar sua narrativa de energia limpa.
“Antes precisamos de dinheiro”, resumiu o presidente, revelando a lógica de curto prazo que sempre prevaleceu nas decisões sobre a Amazônia: usar seus recursos como moeda política, enquanto a pauta ambiental fica restrita a discursos.
Entre floresta e palanque
No fim, o discurso de Lula em Manaus foi um retrato de seu governo: tentar agradar ambientalistas e ruralistas, estrangeiros e aliados locais, sem enfrentar as contradições. A BR-319 segue como símbolo desse impasse — vendida como integração, mas temida como motor do desmatamento.
O presidente fala em “manter a floresta intocável”, mas, ao mesmo tempo, abre caminho para a expansão do agronegócio e da exploração de petróleo. A Amazônia, mais uma vez, vira vitrine de promessas que oscilam entre palanque político e marketing ambiental.

