Sob pressão internacional, Israel retoma envio de ajuda humanitária aérea a Gaza

Israel enfrenta crescentes críticas por conta da crise humanitária em Gaza, e culpa Hamas e ONU por entrega de alimentos deficiente. Uma em cada cinco crianças na cidade de Gaza está desnutrida e palestinos ‘são cadáveres ambulantes’, segundo agência da ONU.

Em meio à crise humanitária enfrentada pelos palestinos, Israel vai permitir que países estrangeiros voltem a lançar ajuda humanitária aérea na Faixa de Gaza, segundo a rádio do Exército israelense e um militar ouvido pela AFP. A data de início das remessas aéreas, no entanto, ainda é incerta.

Israel volta a permitir ajuda aérea em Gaza em meio a agravamento da crise humanitária

A autorização para a retomada da ajuda humanitária aérea à Faixa de Gaza marca mais um capítulo da devastadora guerra entre Israel e o grupo Hamas, em curso desde 7 de outubro de 2023 — data do ataque que resultou na morte de 1.200 israelenses e no sequestro de outras 250 pessoas.

A nova liberação ocorre em um momento de colapso humanitário no território palestino. Com cerca de dois milhões de habitantes, Gaza enfrenta níveis alarmantes de desnutrição, agravados pelo bloqueio às vias terrestres de fornecimento de suprimentos. A crescente pressão internacional e a onda de denúncias sobre a fome generalizada têm forçado o governo israelense a rever algumas restrições.

A Organização das Nações Unidas classificou a situação em Gaza como um verdadeiro “espetáculo de horrores”. Mais de 100 organizações humanitárias alertam para um cenário de “fome em massa”, com relatos crescentes de famílias inteiras privadas de alimento. Segundo a Agência da ONU para Refugiados Palestinos (UNRWA), ao menos 45 pessoas morreram de inanição apenas nos últimos dias.

Imagens divulgadas nesta semana pela agência Reuters mostram crianças em estado de desnutrição aguda sendo atendidas em um hospital na cidade de Khan Yunis, um dos epicentros da tragédia. Já o Programa Mundial de Alimentos (WFP) denunciou que quase um terço da população de Gaza “passa dias sem comer absolutamente nada”.

O panorama atual expõe, de forma crua, a dimensão da catástrofe humanitária em curso, reforçando a urgência de medidas concretas que transcendam os interesses militares e priorizem a vida civil. A retomada da ajuda aérea, embora tardia e insuficiente, surge como uma tentativa de mitigar a fome que ameaça dizimar uma população já exausta pela guerra.

Gaza Humanitarian Foundation

Desde o fim de maio, quando Israel reabriu as fronteiras de Gaza para a entrada de ajuda humanitária após meses de fornecimento interrompido, a distribuição de alimentos tem sido feita por uma organização chamada Gaza Humaniarian Foundaton (GHF).

A fundação é criticada pela ONU e outras agências humanitárias por suas origens obscuras e falta de experiência em crises semelhantes.

Na quarta-feira, a Gaza Humanitarian Foundation ofereceu-se à ONU e a outras organizações para “entregar toda a sua ajuda atual gratuitamente… à medida que a fome atinge um patamar crítico”.

Os centros de distribuição da GHF, porém, são palco de incidentes quase diários em que palestinos são feridos e mortos por tiros disparados por forças da fundação incumbidas de garantir a ordem.

Segundo a ONU, mais de 1.000 palestinos já morreram em incidentes do tipo desde o início das operações da GHF.

“O tempo é curto. As pessoas estão morrendo de fome”, disse o presidente executivo da fundação, Johnnie Moore.

A Fundação Humanitária de Gaza afirma ter entregue quase 1,5 milhão de caixas de alimentos em Gaza.

A ONU e os principais grupos de ajuda humanitária se recusaram a trabalhar com a Fundação Humanitária de Gaza devido a preocupações de que ela tenha sido projetada para atender a objetivos militares israelenses e violar princípios humanitários básicos.

A porta-voz da UNRWA, Juliette Touma, disse na terça-feira que a agência da ONU para refugiados palestinos tinha 6.000 caminhões de alimentos e medicamentos em espera na Jordânia e no Egito, mas não estava autorizada a levar ajuda para Gaza desde 2 de março.

Embora o GHF tenha montado quatro pontos de distribuição, “a ONU e os humanitários tinham 400” antes de estes serem fechados em março por Israel, observou ela.